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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

TRÊS ÊNFASES TEOLÓGICAS DOS PURITANOS - Douglas Kelley

Predestinação, Esperança e Vocação
Devemos mencionar de forma breve três ênfases teológicas dos Puritanos. Acreditamos que estes três princípios ou ênfases teológicas fizeram os Puritanos vitoriosos e triunfantes em seu propósito de mudar o mundo. As três ênfases são estas:

1º - Predestinação 2º - Esperança 3º - Vocação (chamado)

Existem muitos outros fatores, mas acredito que o coração do movimento Puritano pode ser resumido com estas três coisas: 

PREDESTINAÇÃO - Quanto a isso, citaremos um grande historiador contemporâneo de Oxford, Prof. Christopher Hill. Ele aparentemente não é crente, e muitos o tem acusado de ser marxista, mas o que sabemos é que ele tem grande apreciação pelas reformas introduzidas pelos Puritanos. Ele enfatiza a força na crença da predestinação dentro da causa Puritana. Citaremos o seu livro sobre o puritano Oliver Cromwell, chamado o Inglês de Deus (Já traduzido para o português com o título - O ELEITO DE DEUS). Ele disse: “Os homens tem geralmente comentado sobre o aparente paradoxo de um sistema teológico que crê na predestinação e que, ao mesmo tempo, produz nas pessoas uma ênfase tão grande em esforço e energia moral”. Em outras palavras, muitos dizem que se você crê na Predestinação, na soberania de Deus, você não vai fazer mais nada. A História prova exatamente o contrário. Na realidade aquelas pessoas que crêem firmemente na soberania de Deus são as mais ativas e corajosas. Voltemos à citação do Prof. Hill:  "Acredito que o motivo pelo qual os Puritanos foram tão ativos é por causa da consciência da eleição de Deus. Os seus corações haviam sido transformados na direção do Deus vivo. Um homem sabia que estava salvo porque sentia, em algum momento da sua vida, uma satisfação interior, um lampejo que lhe dizia que ele estava em comunhão direta com Deus. Não estamos aqui lidando com uma êxtase místico de um monge, mas com a consciência de pessoas comuns como donas de casa, artesãos ou comerciantes. O que dava a estas pessoas tanta força? Era a sensação de que tinham o Espírito de Deus. Era então, a sensação de terem sido fortalecidas por este Espírito. Era este conjunto de coisas que fazia com que o homem do povo sentisse que qualquer que fosse sua atividade, ela possuía valor diante de Deus. Esta convicção de ter sido eleito e de ter comunhão com Deus através de Cristo deu-lhes autoconfiança numa época em que havia tanta incerteza econômica e adversidade política. Aqueles que criam como os Puritanos, tinham uma “fé interior que os fazia sentirem-se livres, quaisquer que fossem suas dificuldades externas”. 

O Prof. Hill cita o Prof. Haller dizendo o seguinte: “As pessoas que têm certeza de que herdarão o céu, possuem meios de, no presente, assumir a posse da terra”. Completa o Prof. Hill dizendo que “foi essa coragem e confiança que capacitavam os Puritanos a lutar por meio de armas espirituais, econômicas ou militares, para criar um mundo novo, digno daquele Deus que os havia abençoado de forma tão marcante”.

O Dr. Perry Miller da Universidade de Harvard, que é o grande historiador dos Puritanos nos E.E.U.U., certa vez disse: "É impossível você imaginar um Puritano sem esperança; eles criam na soberania de Deus, e isso os fazia agir em face a qualquer dificuldade. Eles sabiam perfeitamente que, se Deus é por nós, nada ou ninguém pode ser contra nós".

Até que tenhamos esta confiança é duvidoso que a Igreja de Deus seja o que deve ser na época presente. Nós sempre podemos encontrar uma desculpa para nos comprometer com o mal, se quisermos. Mas aqueles que têm este senso de comunhão com Deus e confiança no Seu propósito soberano, não procuram comprometer a sua fé. Tão grande é a convicção de que o Senhor Jesus Cristo está próximo, que sabem ser muito mais importante agradar o Senhor Jesus do que agradar os desejos humanistas. Assim, vemos como a doutrina da Predestinação era um dos sustentáculos do sistema Puritano e da sua causa.


ESPERANÇA - Em segundo lugar, o movimento puritano era impulsionado por uma teologia baseada na esperança bíblica . Ian Murray, que é editor da Banner of Truth , escreveu há cerca de 20 anos um livro extraordinário chamado “A Esperança Puritana”, mostrando a interpretação puritana otimista das profecias bíblicas, e como isso levou os Puritanos a esperar que Deus estivesse prestes a concluir a história humana com um triunfo maciço para o Evangelho em termos globais, com a conversão dos judeus e da grande maioria dos gentios através de grandes derramamentos do Espírito Santo, aos quais chamavam de a “Chuva tardia” que viria nos últimos tempos.

Esse tipo de visão que os Puritanos tinham do futuro libertou, na ocasião, presente, os seus corações para colaborar de forma alegre e satisfeita com o propósito de Deus, em termos de se auto-sacrificar para obedecer totalmente a Deus. Eles estavam convencidos de que, uma vez que o Senhor Jesus havia ressuscitado dentre os mortos, não podiam ser derrotados de forma alguma se Deus estivesse ao lado deles.

Aqui está uma declaração típica do grande teólogo puritano John Owen. Ele foi, durante o protetorado de Cromwell, vice-chanceler da Universidade de Oxford, e perdeu esta posição quando voltou a monarquia e o Rei Carlos II. Entretanto, ele continuou a servir a Deus de forma corajosa e brava, sem nunca ficar desiludido ou perder a esperança, mesmo estando em minoria, sem qualquer poder político naquela época. Isso é o que ele escreveu em 1680: “mesmo que nós caiamos, a nossa causa será infalivelmente vitoriosa porque Cristo está assentado à mão direita de Deus; o Evangelho triunfará e isso me conforta de forma extraordinária”.

James Hanik do partido dos “covenants” (pactuantes), que foi martirizado no dia 17 de fevereiro de 1688, em Edimburgo, disse no dia do seu martírio: “ tem havido dias gloriosos e grandiosos do Evangelho nesta terra, mas eles serão nada em comparação àquilo que haverá de ocorrer”. Esse tipo de pessoa que tem tanta esperança no futuro, não pode ser derrotada. Enquanto o Diabo tenta nos desencorajar quanto ao futuro, Deus procura nos fortalecer e encorajar com respeito ao que Ele pode fazer.



VOCAÇÃO - Queremos mencionar, finalmente, outra verdade que fez com que os Puritanos fossem tão fortes e eficazes nos seus dias. Era a ênfase que davam na importância da vocação de cada pessoa. Enfatizavam a necessidade de cada pessoa glorificar a Deus através da sua vocação secular. Sem dúvida, Martinho Lutero já havia ensinado o sacerdócio universal dos santos, e os Puritanos criam nisso. Mas eles desenvolveram a doutrina do chamado de Deus a cada pessoa muito além do que alguém fizera antes. Mesmo estudiosos marxistas do século XX, como o Prof. Arcangius de Leningrado, dá crédito aos Puritanos por terem elevado a moral da classe trabalhadora da Inglaterra naquele período. O próprio Prof. Hill está se mpre citando estes estudiosos marxistas que têm essa visão positiva com relação aos Puritanos neste aspecto.

Obviamente, o levantamento do moral da classe trabalhadora da Inglaterra com o movimento Puritano se deveu à ênfase Puritana sobre a santidade da vocação de cada pessoa. Ao invés de simplesmente distribuir recursos com as pessoas pobres, os Puritanos organizaram sociedades e sistemas, que pudessem ajudar estas pessoas a aprender uma vocação. Eles diziam às pessoas pobres que elas haviam sido criadas à imagem de Deus tanto quanto o Rei, e que o sangue de Jesus tinha sido derramado por todo tipo de pessoas (não por todos). Que eles haviam sido chamados para servir a Deus em suas vidas de acordo com o propósito de Deus. Diziam às pessoas que, quando alguém está varrendo um quarto de forma responsável, está ajudando a avançar o Reino de Deus tanto quanto um grande pregador. Com este tipo de pregação, os pobres começaram a sentir um novo senso de dignidade e começaram a desenvolver os talentos que Deus lhes havia concedido em favor da Inglaterra.

O roubo, os crimes, e a violência caíram tremendamente de nível neste período. Os Puritanos organizaram vários tipos de sociedades voluntárias para dar treinamento e qualificação aos pobres, além de estudiosos para ajudar aos jovens a fundar hospitais de caridade. Tudo isso tinha apenas um propósito: todas as pessoas, sejam ricas ou pobres, podem viver para a glória de Deus.


Quero concluir esta palestra sobre o Puritanismo na Inglaterra citando a 1ª pergunta do Catecismo Maior de Westminster: “Qual o fim principal do homem? Resposta: glorificar a Deus e gozá-lo para sempre ”.


Este estudo se baseia, em grande parte, em palestras de Dr. Douglas Kelley sobre o mesmo tema. Publicado em O Presbiteriano Conservador na edição de Setembro/Outubro de 1995)

Este artigo é parte integrante do portal http://www.monergismo.com/
Artigo completo em http://www.monergismo.com/textos/puritanos/puritanismo_augustus.htm 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Fundamento Bíblico-Teológico do Pós-Mileranismo - Rev. Kenneth L. Gentry, Jr.

Pós-Milenismo e a Bíblia
O pós-milenarismo espera que a grande maioria da população mundial se converta a Cristo como conseqüência da proclamação do evangelho pelo poder do Espírito. À luz das condições do mundo atual, muitos cristãos estão surpresos com a resistência da esperança pós-milenar. Antes de fornecer uma evidência exegética positiva para a posição pós-milenar, mostrarei de modo breve que, embora essa esperança na vitória do evangelho seja estranha para o evangélico moderno, a teologia básica bíblica lhe é inata. Esses fatores sugerem, à primeira vista, a plausibilidade do pós-milenarismo.

O Propósito Criacionista Divino

Em Gênesis 1, encontramos o registro divino da criação do Universo no espaço de seis dias. Como resultado do resoluto poder criativo de Deus, tudo era originalmente “muito bom” (Gn. 1:31). De fato, cremos que Deus criou o mundo para a sua própria glória. “Pois dele, por ele, e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém” (Rm. 11:36). “Pois nele foram criadas todas as coisas nos céus [...]” (Cl. 1:16b). A Bíblia reafirma com freqüência o amor de Deus por sua ordem criada e reivindica seu direito de propriedade sobre todas as coisas. “Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele vivem”.1 O pós-milenarismo defende que o amor de Deus por sua criação motiva-lhe a preocupação de trazê-la de volta ao seu propósito original, ou seja, de promover glória verdadeira a ele. Assim, a plena expectativa do pós-milenarismo está arraigada na realidade criacionista.

O Poder Soberano de Deus

Nossa tarefa evangelística no mundo deveria ser incentivada pela certeza de que Deus “faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade” (Ef. 1:11). Temos como verdadeiro que Deus controla a história por intermédio de seu decreto, por meio do qual “faço conhecido o fim” (Is. 46:10). Por conseguinte, os pós- milenaristas asseveram que a Palavra de Deus, como ele mesmo diz “não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei” (Is. 55:11), independentemente da oposição dos seres humanos ou de demônios, apesar dos fenômenos naturais ou das circunstâncias históricas.
Por conseguinte, o cristão não deve usar fatores históricos passados ou circunstâncias presente para prejulgar as probabilidades do futuro sucesso do evangelho. Antes, deve avaliar suas possibilidades unicamente com base na revelação de Deus na Escritura, pois o sucesso do evangelho é: “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito” (Zc. 4:6). Assim, a confiança definitiva do pós-milenarista está na soberania de Deus.


A Bendita Provisão Divina

Além disso, o Senhor dos senhores equipa amplamente sua igreja para o sucesso da missão de evangelização do mundo. Dentre as ilimitadas providências divinas para a igreja, estão as seguintes:

1)      Temos conosco a presença real do Cristo ressurreto2. Ele é aquele que ordenou “ir e fazer discípulos de todas as nações”, prometendo estar conosco até o fim (Mt. 28:19,20). Podemos, portanto, estar convencidos “de que aquele que começou a boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fp. 1:6).

2) O Espírito Santo habita em nós vindo do alto.3 Assim cremos que “aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo” (1Jo. 4:4). Entre seus muitos ministérios, ele produz um novo nascimento, concede poder aos crentes para um viver justo, e abençoa a proclamação do seu evangelho trazendo os pecadores para a salvação.4

3) O Pai se deleita em salvar pecadores.5 Na realidade, o Pai enviou seu Filho “não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele” (Jo. 3:17).

4) Nós temos o evangelho, que é o “poder de Deus” para a salvação.6 Também brandimos a poderosa Palavra de Deus como nossa espada espiritual. “As armas com as quais lutamos não são humanas, ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo”. (2Co. 10:4,5).7

5) A fim de nos apoiar e capacitar para a vitória do evangelho, temos pleno acesso a Deus em oração8 mediante o nome de Jesus.9 O próprio Cristonos ordena a orarmos ao Pai. “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt. 6:10).

6) Ainda que tenhamos a oposição sobrenatural de Satanás, ele é um inimigo derrotado como resultado do primeiro advento de Cristo. “Portanto, visto como os filhos são pessoas de carne e sangue, ele também participou dessa condição humana, para que, por meio da morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo” (Hb. 2:14).10 Assim, podemos resistir a ele e ele fugirá de nós (Tg. 4:7; 1Pe. 5:9); podemos esmagá-lo sob nossos pés (Rm. 16:20). Certamente, a missão que nos foi confiada por Deus é trazer a humanidade “das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus” (At. 26:18). Assim, a capacitação da igreja é concedida por nosso gracioso Salvador.


Por essa razão, uma vez que Deus criou o mundo para sua glória, reina sobre ele segundo o seu poder ilimitado e equipa seu povo para superar o inimigo, o pós- milenarista pergunta: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm. 8:31). Nossa confiança está no serviço do Senhor Jesus Cristo, “o soberano dos reis da terra” (Ap. 1:5). Ele está assentado à mão direita de Deus “nas regiões celestiais, muito acima de todo governo e autoridade, poder e domínio, e de todo nome que se possa mencionar, não apenas nesta era, mas também na que há de vir. Deus colocou todas as coisas debaixo de seus pés e o designou cabeça de todas as coisas para a igreja” (Ef. 1:20-22). Temos certeza de que a ressurreição de Cristo é mais poderosa do que a queda de Adão.
É claro que tudo isso não prova que Deus conquistará o mundo pela vitória do evangelho. Mas isso deveria dissipar qualquer abandono prematuro e fortuito do pós-milenarismo como uma opção evangélica e viável, pavimentando, assim, o caminho para a reconsideração do caso de nossa esperança evangelística. A pergunta agora é: A esperança pós-milenar está arraigada na inspirada e infalível Palavra de Deus? Consideremos então esse tópico.


1 - Sl 24:1; v. Ex 9:29; 19:5; Lv 25:23; Dt 10:14; 1Sm 2:8; 1Cr 29:11 e 14; Jó 41:11; Sl 50:12; 89:11: 115:16; 1Co 10:26 e 28.
2 - Jo 6:56; 14:16-20, 23; 15:4,5; 17:23,26; Rm 8:10; Gl 2:20; 4:19; Ef 3:17; Cl 1:27; 1Jo 4:4.
3 - Jo 7:39; 14:16-18; Rm 8:9; 1Co 3:16; 2Co 6:16.
4 - Jo 3:3-8; 1Co 6:11; Tt 3:5; 1Pe 1:11,12,22.
5 - Ez 18:23; 33:11; Lc 15:10; 2Co 5:19; 1Tm 1:15; 2:5.
6 -  Rm 1:16; v. 15:19; 16:25; 1Co 1:18,24; 1Ts 1:5.
7  - V.tb. 2Co 6:7; Ef 6:17; 1Ts 2:13; Hb 4:12.
8  - Mt 7:7-11; 21:22; Ef 2:18; Fp 4:6; Hb 4:16; 10:19-22; 1Jo 3:22; 5:14,15.
9 - Jo 14:13,14; 15:7,16; 16:23,24,26; 1Jo 3:22; 5:14,15.
10 - Mt 12:28,29; Lc 10:18; Jo 12:31; 16:11; 17:15; At 26:18; Rm 16:20; Cl 2:15; 1Jo 3:8; 4:3,4: 5:18.

Fonte: O Milênio: 3 Pontos de Vista, Darrell L. Bock (organizador), Editora Vida, p. 20-23.11.


SOBRE O AUTOR
Kenneth L. Gentry, Jr., obteve o seu título de Mestre em Divindade (M.Div.) no Reformed Theological Seminary e o Mestre (Th.M.) e Doutor em Teologia (Th.D.) no Whitefield Theological Seminary. Ele é o Diretor do NiceneCouncil.com e pastor na Reformed Presbyterian Church, General Assembly

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

João Calvino: Sua Influência na Vida Urbana de Genebra - Rev. Sérgio Paulo Ribeiro Lyra

Genebra no tempo de Calvino
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO 
2. GENEBRA ANTES DE CALVINO 
2.1 - O Contexto Político Genebrense
2.2 - A Situação Estrutural da Cidade
2.3 - A Influência Protestante Externa em Genebra
 
3. TRAÇOS DA LIDERANÇA DE JOÃO CALVINO 
3.1 – Um Líder Preparado para Servir
3.2 – Calvino: Um Líder Contemporâneo
3.3 – A Liderança Estruturada de Calvino
3.4 - Perigos e Erros de um Jovem Líder
 
4. A INFLUÊNCIA DE CALVINO EM GENEBRA 
4.1 – Impactos na Política de Genebra
4.2 – Transformações Econômicas e Sociais
4.3 – A Revolução na Vida Religiosa em Genebra
 
5. CONCLUSÃO 
6. BIBLIOGRAFIA 

1. INTRODUÇÃO
Inquestionavelmente João Calvino foi um homem incomum. Ele não apenas foi uma personalidade marcante e influenciadora, mas também demonstrou uma admirável capacidade de organizar e legislar. Os impactos de sua liderança na cidade de Genebra deixaram profundas marcas em uma civilização inteira, marcas essas que se espalharam tanto por onde a fé reformada achava abrigo quanto nos locais onde era rejeitada. Na busca de lançar um pouco mais de luz sobre os princípios da liderança adotados por Calvino durante o seu ministério em Genebra, empreendemos esta pesquisa. Constatamos que a quantidade de material produzido tanto por Calvino como por companheiros seus, além de abundantes obras atuais, nos permitiram produzir um trabalho que focaliza o reformador no desenvolvimento de suas relações como um líder cristão de grande influência, bem como identificar aspectos e impactos produzidos no contexto urbano de Genebra do século XVI.
Buscando ser fiel ao escopo aqui estabelecido, se faz necessário, logo de início, deixar claro que mesmo com o grande volume de informações disponíveis, o que fazemos ainda é uma dedução a partir de escritos sem vida, com os quais não podemos dialogar. Nas palavras de Richard Gable: "Tratar de descrever a influência de Calvino em qualquer país específico é uma tarefa complexa e mais difícil ainda quando sintetizar se faz necessário". Isto significa que jamais podemos declarar como amplamente conclusivas e totalmente corretas em suas ênfases, todas as conclusões a que chegarmos. Para tanto basta se constar as centenas de livros que ora defendem, ora rejeitam o reformador de Genebra.
Partindo da necessidade de se conhecer a realidade situacional de Genebra de 1500, faremos, de início, uma breve exposição do contexto que envolvia aquela cidade, bem como os aspectos geo-politicos e sócio-econômicos. Em seguida, lançando mão de descrições biográficas acerca de Calvino, buscaremos identificar o perfil de sua formação familiar, acadêmica e espiritual para então focalizar o seu ministério em Genebra, inicialmente como pastor e posteriormente como pastor-legislador. Por fim, no último capítulo, abordaremos os macro impactos causados por sua liderança no povo e nas estruturas urbanas de Genebra.
2. GENEBRA ANTES DE CALVINO
A Genebra do século XVI era um cidade suíça, de fala francesa, estando situada ao sul do lago Leman, conhecido hoje como lago de Genebra. Ela é dividida em duas pelo rio Rhône, tendo uma ponte ao norte, conhecida como St Gervais, que proporcionava o contato entre as duas partes. Até 1536 a situação da cidade era delicada. Genebra foi uma república que estava inserida entre os limites dos cantões suíços, os domínios do duque de Savóia e o reino da França, e uma luta pelo poder gerava disputas na cidade.
2.1 - O Contexto Político
Durante a idade média, Genebra foi uma vila episcopal que deveria ser governada pelo seu bispo. Mas, na realidade, ela estava sob o controle do duque de Savóia, Charles III, desde 1504. Havia uma acirrada luta pelo poder entre o bispo católico Jean e o Duque. Porém, com a morte do bispo o duque Charles tomou para si praticamente toda a autoridade e incorporou ao seu controle as "adjudicações de causas cíveis que rendiam muito dinheiro" e que estavam sob a tutela do bispado. Tal atitude provocou uma revolta nos habitantes de Genebra contra o duque, produzindo uma guerra entre os moradores da cidade e as forças do duque. Nesse tempo, entrou na disputa a poderosa cidade de Berna, cujo governo considerava Carlos V, rei do
Sacrossanto Império Germânico, Espanha e países Baixos, pessoa perigosa por também desejar governar a Suíça. Em 8 de fevereiro de 1520, o concílio de Berna recebeu a cidade de Genebra como sua confederada e concílios desta votaram aprovando a confederação. O então atual bispo de Genebra, que era um representante do duque, ao saber da federação de Genebra a já protestante cidade de Berna, fugiu da cidade com outras 50 pessoas ligadas ao duque. Seguiu-se uma real guerra entre as forças de Genebra e as do duque de Savóia, o qual armou guerrilhas que assaltavam aqueles que se dirigiam à cidade, bloqueando as estradas. Apenas quando o forte exército de 6.000 homens de Berna se movimentou em direção a Genebra, forçando as tropas do duque a recuarem para a França, é que as estradas foram liberadas e Genebra ficou livre.

2.2 - A Situação Estrutural da Cidade
Não há um pleno consenso sobre a população de Genebra antes da chegada de Calvino em 1536. McNeill fala de 12.000 habitantes, Nichols 13.000 e Hermisten Costa, citando Stanford Reid, defende apenas 9.000 habitantes. Contudo, segundo Phillip Schalf, parece ser mais aceito 12.000 habitantes a população no início do século XVI. A cidade era conhecida pelas suas ruas limpas com banheiros públicos, e pelo forte comércio que nela acontecia, fruto de freqüentes feiras setorizadas. Em Genebra se produzia grãos, peixes secos e artesanato. Sua característica econômica diferia da maioria das cidades da região, embora houvesse algumas indústrias. Segundo Bieler, "Em Genebra não havia um proletariado urbano ou mineiros como na Alemanha e França, ou uma classe camponesa numerosa".
Genebra era também conhecida como a "cidade dos concílios". Os membros desses concílios eram eleitos pelo povo e tinham a finalidade de exercer tanto o poder executivo quanto o legislativo e judiciário. Os concílios eram em número de quatro: o concílio de 4 síndicos sendo este o que exercia a função executiva; o concílio menor que incorporava os 4 síndicos e mais 21 outros membros; o Concílio dos 200, composto por 200 cidadão eleitos; e o concilio geral, também conhecido como " Bourgeoisie ", composto por todos homens nascidos de Genebra e chamados de " Citoyen ". Afora isso, a cidade era uma típica cidade do seu tempo, com muita fumaça produzida pelos fogões à lenha e aquecedores, muita lama nas épocas de chuvas, muitos animais domésticos e muros protetores ao seu redor.
Contudo, foi apenas em um aspecto que Genebra se tornou realmente única em toda Europa, a cidade foi o ponto central para treinamento e expansão da reforma calvinista. Segundo a nossa percepção, talvez, o título de centro da infiltração protestante seria uma terminologia mais descritiva do que a cidade representou para a reforma.

2.3 - A Influência Protestante Externa em Genebra
A cidade de Berna havia abraçado o protestantismo em 1528 pela ação de pregadores influenciados por Lutero e Zwinglio, contudo no que diz respeito a "conversão" de Genebra ao protestantismo, ocorreu algo semelhante ao que se deu na cidade de Antioquia da Síria. Comerciantes protestantes de Nürenberg e soldados de Berna com seus capelães, gradualmente trouxeram o protestantismo para Genebra. Pregadores como Antoine Froment e Guilherme Farel foram tão influentes que já em 1533 a primeira ceia do Senhor foi celebra na cidade. Em 1534 o concílio menor votou que o episcopado deveria ficar vago e em 21 de maio de 1536 o concílio geral votou unânime: "viver de acordo com o evangelho". É nesse contexto que dois meses depois João Calvino, quando ia de viagem em direção à cidade de Estrasburgo, ao decidir apenas pernoitar em Genebra, propiciou o seu já bem conhecido encontro com Farel e com Genebra.

3. TRAÇOS DA LIDERANÇA DE JOÃO CALVINO

Calvino como Líder Contemporâneo em Genebra
Há uma claro consenso entre os historiadores em apresentar Calvino como um líder claramente relacionado com os problemas do seu tempo e contexto. William Bouwsma no prefácio do seu livro sobre Calvino chega a afirmar que "não pode aceitar a versão ensinada de Calvino como um pensador sistemático" e enfatiza: "eu não acredito que Calvino sequer aspirava construir um sistema, como o termo ‘sistema' é comumente entendido... Ele (Calvino) procurou, como outros humanistas, desenvolver uma efetiva pedagogia... a urgência do seu tempo requeria isto". Este mesmo autor reiterando a sua posição de apresentar Calvino como um líder pertinente ao seu tempo, cita o próprio Calvino afirmando: "verdadeiramente nós devemos trabalhar mais para o nosso tempo e tomá-lo com mais afinco. O futuro não deve ser desprezado, mas o que é presente e urgente requer mais de nossa atenção". Vejamos, pois, como isto se processou nas diversas fases da vida de Calvino.
A. O propósito primevo das Institutas
De particular interesse para nós, é registrar o real propósito pelo qual Calvino decidiu escrever a primeira versão de suas Institutas. Sua liderança como proeminente teólogo e jurista já se destacava pelos constantes questionamentos que lhe eram feitos aonde chegasse. Porém, o ponto de partida foi a atitude do rei francês Francis que para afastar a simpatia dos estrangeiros pelas vítimas de sua perseguição contra os protestantes, declarou em um de seus manifestos que os punidos com torturas e fogueira eram apenas anabatistas e homens perversos. Calvino, vivendo esse momento resolveu escrever suas Institutas com dois propósitos: "Primeiro para vindicar o indesejável insulto ao meu irmão (Etiene de la Furge) cuja morte foi preciosa aos olhos do Senhor, e segundo, uma vez que alguns sofrimentos afligiram muitos homens piedosos, alguma tristeza e cuidados por eles deve mover povos estrangeiros". John Dillengerber nas suas seleções de escritos de Calvino inclui o prefácio que foi elaborado para o comentário do livro de Salmos onde Calvino explicita o seu propósito em escrever as Institutas:
Vendo eu que esses arengueiros da corte usavam e dissimulações de diligências por fazer não somente que a dignidade desse derramamento de sangue inocente permanecesse amortalhada pelas falsas imputações e calúnias, com as quais enxovalhavam os santos mártires após a sua morte, mas também que a seguir, contavam como meio de produzir a todo extremo para afligir os pobres fiéis, sem que alguém pudesse ter compaixão deles, pareceu-me que, a não ser que a isso me opusesse valorosamente, quanto a mim estava, não podendo eu desculpar-me de, em calando-me, ser eu considerado covarde e desleal. E esta foi a razão que me levou a publicar as Institutas.
Aos dois desejos expressos por Calvino deve ser acrescido o desejo de ver o rei Francis I mudar a sua atitude de perseguição violenta, desejo este que Calvino claramente expõe na carta de dedicação das Institutas enviadas ao rei. Contudo, o que poucos divulgam hoje é que o autor das Institutas as escreveu por causa das perseguições da sua época. Fica assim mais uma vez evidente que o grande Reformador foi um líder do seu tempo, pertinente ao contexto histórico e relevante às necessidades do seu momento. Merece ainda destaque o fato de Calvino não ser um líder isolacionista. Com ele estava um grupo de homens dedicados a Cristo e a sua obra. Eles estavam inconformados com a selvagem perseguição aos protestantes, e igualmente preocupados em esclarecer a muitos as verdades do evangelho.

B. Líder contextualizado com a realidade de Genebra
Focalizando o nosso escopo geográfico urbano, lançaremos luz sobre a determinação de Calvino ser um líder cristão relevante e contextualizado em Genebra. Mesmo reconhecendo que a cidade já havia experimentado resultados transformadores fruto da sua adesão à fé reformada, através das pregações de Farel e do trabalho de Viret, algo ainda faltava à Genebra. Foi por essa razão que Farel insistentemente instou com Calvino para que ele decidisse ficar na cidade e ajudar na implementação de estruturas que refletissem os princípios da reforma protestante. A liderança organizadora, participativa e contextualizada de João Calvino produziu uma verdadeira reforma urbana em todos os níveis. Hörcsik afirma que "o trabalho de Farel produziu um ‘santo triunvirato' – Farel, Viret e Calvino. Eles eram complementares uns aos outros, bem como à congregação de Genebra e grandemente fortaleceram a Igreja".
Porém, não foi o apelo intimador de Farel o principal motivo que fez Calvino ficar em Genebra. De acordo com Alexander Ganoczy "Calvino não anuiu ao pedido de Farel até ele reconhecer a real situação de Genebra". O próprio Calvino, 28 anos após sua decisão de assumir o desafio Genebrense, escreveu: "Quando na primeira vez vi a esta igreja, ela era praticamente nada. Eles pregavam e isto era tudo. Eles procuravam por ídolos e os destruíam mas, não havia a menor reforma. Tudo estava em desordem". Calvino não era apenas um líder sensível e escrutinador das necessidades do seu contexto, ele era também um líder cujo preparo o habilitava a servir com probidade e capacidade. Foi por assim pensar que André Biéler no começo do seu livro O Pensamento Econômico Social de Calvino atesta que "não seria possível vislumbrar o pensamento econômico social do reformador sem vinculá-lo estreitamente aos principais acontecimentos sociais e religiosos do século XVI".

4. A INFLUÊNCIA DE CALVINO EM GENEBRA
Charles van Engen no seu livro Povo de Deus, Povo Missionário falando sobre a liderança cristã, afirma que não é uma tarefa simples definir o que seja um bom líder, porém sugere como aceitável a definição de W. Engstron o qual declara: "O líder faz as coisas acontecerem, jamais são marionetes, e agem". Neste aspecto Calvino se mostrou um líder marcante. A cidade de Genebra chegou a ser conhecida como a cidade de Calvino. Isso começou a acontecer no período intermediário de sua segunda estada em Genebra, época em que os movimentos de oposição à sua liderança praticamente se renderam aos benefícios de sua administração. Segundo Georgia Harkness o reformador francês, como ele o menciona, tinha em mente remodelar as estruturas globais da cidade tornando-a " Civit Dei – cidade de Deus, ", cidade na qual a Palavra de Deus deveria ser a última autoridade em matéria de moral, bem como de fé". O desejo de implementar o ideal cristão na vida da cidade produziu mudanças urbanas profundas, não apenas nas estruturas de governo, mas também nos governantes e nos cidadãos. Sem deixar de reconhecer que os impactos resultantes de seu dedicado esforço em Genebra espraiou-se por quase todo ocidente, aqui decidimos focalizar apenas os macro impactos da liderança de Calvino na política, na área econômica e social e na vida religiosa da cidade de Genebra.
4.1 - Impactos na Política de Genebra
Como já dissemos, Genebra era uma cidade governada por concílios. Antes de Calvino não havia uma normatização legislativa organizada e explicitada para todos. Movido pelo seu zelo de sempre ser fiel ao ensino moral da Bíblia, e ajudado por seu conhecimento jurídico, ele foi o agente e mentor de várias mudanças políticas. É bem verdade que Calvino só foi chamado para se envolver ajudando na confecção do corpo de leis para a cidade, posteriormente à sua intensa atividade na reformulação da vida religiosa. Aqui destacamos dois pontos, por considerá-los de maior grandeza, a relação entre a igreja e estado, e o governo com a participação popular.

A. 
Relações entre o estado e a igreja 

Como reflexo da política praticada em sua época, o atrelamento funcional igreja-estado, que fora exercido por séculos pelo catolicismo romano, também foi claramente percebido em Genebra. Reformadores como Martin Bucer se posicionavam favorável à não independência da igreja em relação ao estado, posição que Calvino não apoiava. Nesse assunto parece haver um ponto de discordância entre os estudiosos. Há autores que apresentam o nosso reformador como um ardoroso advogado da plena independência, e outros que lançam dúvida como pode ser notado na avaliação de Wilson Ferreira: "essa separação da igreja e estado existiu para Calvino mais em teoria do que em prática". Embora não fosse desejado a interferência do estado nas decisões e estruturas de ação da Igreja, Bouwsma alerta que Calvino admitia como ação legítima do estado "defender a igreja e executar vingança sobre os profanos ou sobre aqueles que querem reduzir a nada o evangelho", e André Biéler também compartilha dessa idéia ao enfatizar que para Calvino "O Estado não é, pois, um mal necessário, mas um instrumento da providência divina".
Por outro lado, é inegável que a chagada de Calvino em Genebra foi a fonte de vários confrontos com os concílios da cidade em busca de uma autonomia para a liderança eclesiástica e uma maior clareza entre os limites das atribuições e poderes entre a igreja e o estado. Logo no primeiro período, Calvino rejeitou a autoridade da igreja sobre causas civis e restituiu aos magistrados civis, o poder que havia sido exercido pelos bispos católicos. Não pairam dúvidas que ele não permitia a interferência do estado nas decisões da igreja. Na verdade nos parece sensato reconhecer que na estrutura de governo idealizada, a igreja seria autônoma em seus assuntos de crença, fé e disciplina, devendo o estado ouvir e proteger a igreja, e a igreja não deveria exercer o poder civil.

B. 
Governo político e participação popular
Para o reformador de Genebra não havia uma desassociação entre a vida cristã e a sua participação nos assuntos da comunidade. Exatamente por entender que a participação política é responsabilidade de todo cristão, sua posição quanto a forma de governo refletia uma franca rejeição a qualquer tipo de governo que fosse déspota e tirânico. O poder civil deveria ser uma representação da vontade popular, ao mesmo tempo que o povo, a partir de sua juventude, deveria ser preparado para se tornar politicamente responsável e participativo. O intuito de politizar os cidadão é visto por Bouwsma como "uma busca para produzir (nos cidadãos) uma consciência política e um senso de responsabilidade pública". O que necessita ficar bem entendido é que Calvino procurou estabelecer que a "Igreja e o estado deveriam estar livres para legislar na extensão da lei e controle, os dois governos deveriam assistir um ao outro", pois na sua concepção "política e a verdade espiritual são inseparáveis".
Um fato ocorrido em 1543 tornou decisiva a influência de Calvino na vida pública. O concílio dos 25 o convocou para cooperar na elaboração de uma nova ordem social para Genebra. André Biéler argumenta que dois aspectos principais se destacaram. Primeiro a liberdade civil passou a ter a sua restrição nos princípios do próprio evangelho, pois agora a lei estabelecia que cada cidadão faria "juramento de viver e de morrer para manter o evangelho e a liberdade da cidade". O segundo destaque é para a liderança, o magistrado, o príncipe ou conselheiro de uma democracia não pode ser indiferente a sua fidelidade à igreja. Tais posições apresentam um certo atrelamento do poder civil ao religioso. Esta posição é também a de William Bouwsma que ressalta o fato de Calvino partir do pressuposto de que "o homem não habita junto sem lei" e, admitindo que é possível e permitido resistir à autoridade publica que "exalta a si mesmo e diminui o direito de Deus", não poderia deixar de produzir uma ordem pública aonde "o governo civil deve implantar a vontade de Deus" .
Essa estrutura governamental idealizada e implementada em Genebra levou alguns estudiosos a caracterizar a proposta calvinista de governo como uma teocracia, onde a igreja estaria acima do estado. Contudo, a melhor avaliação, ao nosso ver, é a de Harkness ao dizer que "o que se diz da ‘teocracia' de Calvino é melhor propriamente dito ser chamado governo ‘bibliográfico'.".

4.2 - Transformações Econômicas e Sociais
É fato já conhecido, antes de Calvino chegar a Genebra, que os impactos provenientes das doutrinas e princípios abraçados pela reforma iniciada por Lutero e Zwinglio, já haviam chegado à cidade. Mudanças significativas modificaram a vida dos genebrenses tornando a administração da coisa pública mais povo-orientada. Isso pode ser visto na área da educação quando em 1536 o governo pediu que os cidadãos de Genebra assinassem um pacto comprometendo-se a enviar seus filhos às recém-formadas escolas púbicas, e também na área da saúde, pois a cidade mantinha um hospital comunitário.
A fortíssima ligação de Calvino com a prática do evangelho não permitiu que houvesse uma desassociação entre a reforma social e a reforma religiosa. O traço holístico da reforma calvinista produziu o que hoje tem sido chamado de missão integral. Segundo Biéler, é tarefa difícil, se não impossível, dizer que Calvino, ao promover o bem estar público e social, desligava-se das formulações teológicas pois "elas seguem juntas". Genebra havia sido sacudida pelo evangelho, mas lhe faltava organização normativa, a reforma fora, em parte, o reflexo de um desejo popular, contudo a presença de Calvino e sua liderança foram a peça chave de uma estrutura estável e organizada, fator que David Bosh chama de "instituição do movimento". Historiadores modernos alegam que a reforma popular na cidade "não levaria a nenhum estado duradouro enquanto não recebesse a instrução de intelectuais (Calvino e seus companheiros)".
Ao contrario da idéia abraçada pela Igreja Católica Romana que havia praticamente dicotomizado o material e o espiritual, sendo o segundo o sagrado, os ofícios não sacerdotais eram ditos inferiores e seculares, não sagrados. A doutrina do sacerdócio universal de todos os santos estabelecida pela reforma, jamais poderia deixar de encontrar amparo no pensamento social de Calvino. Ele não concebia um evangelho que não levasse o cristão a participar relevantemente na vida ativa da cidade.
A sua contribuição na área social levou Graham a considerar "Calvino como o teólogo de maior influência para o contexto urbano de sua época, ao defender que "todo empreendimento humano está marcado com o mal, contudo isto nos impulsiona com o propósito de fazer o evangelho relevante na cidade de comércio na qual vivemos e trabalhamos.". Dentre o muito que foi conseguido pela participação marcante do reformador em Genebra na área sócio-econômica selecionamos aqui 12 itens:
  • Assistência social aos necessitados sem discriminação de nacionalidade.
  • Ajuda e cuidado com a saúde popular através de um programa de visita médica domiciliar.
  • Esforços do governo na capacitação profissional.
  • Combate ao desemprego com oferta de trabalho pelo governo.
  • Ênfase no amparo aos pobres, idosos e desamparados.
  • Luta contra a insolência do luxo em relação aos pobres.
  • Exemplo de simplicidade por parte dos reformadores-líderes públicos.
  • Limitação dos juros nos empréstimos.
  • Forte combate à especulação.
  • Ataque frontal à escravidão.
  • Combate a bebedice e proliferação das tavernas.
  • Grande esforço na educação de todos.
Merece um pouco mais de pesquisa a liderança de Calvino na área da educação. Em Genebra a sua grande marca educacional ficou indelével através da criação da Academia. Essa escola possuía dois níveis, o fundamental que era conhecido como escola superior ou pública , e o segundo era o inferior ou escola privata equivalente ao nosso terceiro grau. A Academia de Genebra foi fundada em 1559 e Calvino convidou Teodoro Beza para ser o seu primeiro reitor. Essa escola veio a tornar-se o seminário do calvinismo e o modelo para várias outras universidades que foram lideradas por grandes nomes, ex-alunos da Academia de Genebra. No ano da morte de Calvino a escola tinha 1.500 alunos matriculados, onde a maioria era de estrangeiros. A escola de primeiro grau possuía 1.200 alunos, e a universidade 300 estudantes de teologia, direito e medicina .

4.3 - A Revolução na Vida Religiosa em Genebra
Visando a tarefa de reestruturar o governo eclesiástico segundo as Escrituras, em novembro de 1536, Calvino e Farel compilaram um documento que continha regras para uma nova ordem litúrgica dos cultos, uso dos sacramentos e costumes que os fiéis deveriam respeitar. No documento havia pontos pacíficos como a valorização da família, a eleição dos pastores de cada paróquia e a representatividade dos presbíteros nos distritos. Contudo, logo no primeiro artigo do documento, havia uma matéria que Biéler chamou de "equívoco calvinista que irá suscitar tanto controvérsias como interpretações fantasiosas.". Por ele dava-se ao magistrado civil o poder de intervir para avaliar a fé dos cidadãos, o que não deixava de ser uma espécie de continuidade da política Católico-Romana. Por outro lado, a estrutura hierárquica clerical adotada por séculos pela Igreja Católica, não refletia o ideal bíblico, e o papa era claramente identificado por Calvino como um agente de Satanás. Rejeitando peremptoriamente essa "tirania papista", ele implementou na igreja um governo com raízes no ensino das Escrituras que estava estabelecido sob quatro ofícios onde leigos e ordenados tomavam parte.
Partindo do pano de fundo no qual a Igreja Católica vivia a longa tradição milenar que ensinava existir vários ofícios no ministério sacramental, a teologia reformada causou grande impacto quando Lutero propagou o sacerdócio de todos os santos. Porém, foi João Calvino, com a sua doutrina da pluralidade dos ministérios eclesiásticos, que abriu definitivamente as portas para o ministério leigo participativo, diretivo e até disciplinador. A modificação se deu pela revisão na concepção do sagrado, quebrando-se a dicotomia profano-sagrado, e consequentemente clero-povo. A designação "ministérios eclesiásticos" passou também a ser utilizada para "funções temporais tais como a administração do dinheiro e a caridade". Ora, na teologia romana todas as funções administrativas, interpretativas da Palavra, sacramentais e disciplinares, eram exercida pelo clero e somente pelo clero ordenado, posição que Calvino discordava. O teólogo reformado McKee comentando esse posicionamento afirmou: "ele (Calvino), negando quaisquer diferenças essenciais entre os cristãos, admitiu que os leigos também são ministros não somente na vida particular, mas também na liderança da comunidade cristã". Estes ministérios plurais estavam mais relacionados com as funções necessárias da liderança eclesiástica. O reformador, na verdade, não excluiu totalmente a idéia de "clero" pois os "pastores ordenados" eram os responsáveis pelos sacramentos e pela pregação, e o laicato se ocuparia de todas as outras tarefas religiosas.
O ensino do Calvinismo quanto aos ministérios plurais, apresentava quatro ofícios eclesiásticos: Pastor, Mestre, Presbítero e Diácono. Porém, Calvino é o único a defender que dos quatro, os ofício leigos de presbítero e diácono, são também permanentes. Interessante é a dupla tarefa dos mestres, os quais deveriam ser responsáveis pelo "ensino da doutrina sólida aos fiéis e preparar os jovens para o ministério e para o governo civil". Assim, para os reformadores calvinistas, os ministérios cristãos leigos de disciplina e caridade, foram entendidos como ofícios da igreja e baseados na Bíblia e ativos na cidade. O leigo, com Calvino, voltou a ter participação ativa na ação, decisão e missão da igreja. Digno de registro é ainda a aceitação, por parte de Calvino, de mulheres no ofício de diácono. Embora ele não tenha enfatizado muito esta questão, os seus escritos claramente o admitem.
O cuidado a ser dispensado aos pobres foi confiado aos diáconos. Contudo, duas espécies são mencionadas na carta aos Romanos: "Aquele que dá, faça-o com simplicidade;... o que exerce misericórdia, com alegria" (Rm 12:8). Visto que é certo que Paulo está falando do ofício público da igreja, aqui tem de haver dois graus distintos. A menos que minha avaliação me engane, na primeira cláusula ele designa os diáconos que distribuem as esmolas. Mas a segunda refere-se àqueles que se dedicam ao cuidado dos pobres e dos enfermos. Nessa categoria estavam as viúvas que Paulo menciona a Timóteo (I Tm 5:3-10). As mulheres não podiam ocupar nenhum ofício público a não ser se dedicarem a cuidar dos pobres. Não havendo mais a autoridade de um padre, em nome da igreja, sobre o povo, a fim de manter a disciplina na igreja, foi criado um conselho eclesiástico chamado consistório. Este órgão era composto de 6 pastores e 6 leigos – presbíteros, sendo presidido pelo primeiro síndico. A disciplina que era imposta aos faltosos possuía três níveis: admoestação particular, admoestação com testemunhas e a excomunhão.
A liderança de João Calvino na igreja geneberense não foi uma tarefa tranqüila. No seu começo ela proporcionou grandes impactos e recebeu fortes ataques. Ao longo de sua influência, essa resistência veio a arrefecer sendo possível traçar dois períodos. O primeiro foi marcado pelo desejo de provocar rápidas e decisivas mudanças e continha um certo sabor de liderança radical em aspectos de conduta, embora estivesse correto nos seus propósitos. O segundo foi marcado pela liderança mais ponderada e comedida, resultando em sólidas alterações religiosas e sociais.
O forte sabor de extremismo do primeiro período não deixou de produzir as suas marcas nas propostas para a área religiosa. O ponto alto, talvez, tenha sido quando o concílio menor, influenciado pelos reformadores, concordou com os termos de um documento elaborado por Calvino e decidiu que "faria uma inquisição acerca das insolências e maus costumes que reinavam por sobre a cidade, e que se viva segundo Deus". À priori tal proposta até veio a se assemelhar com o propósito de Esdras e Neemias na reconstrução das estruturas morais e religiosas do povo de Israel, contudo, os pastores de Genebra foram além e "proibiu-se cantar cantigas chulas, jogar jogos de azar, abrir qualquer espécie de posto comercial no domingo na hora do sermão ou apregoar nas ruas a venda de comidas". Além disto, foi também proibida a exibição de dramas e estabelecida uma punição para quem dançasse, mesmo quando praticada entre cônjuges e familiares,. A reação popular foi imediata. A população sentiu-se acuada e aprisionada, logo pressionou o concílio dos 25 e este, por sua vez, esquivou-se creditando a culpa aos pastores, o que veio a tornar-se um dos fatores para a expulsão de Calvino e Farel em 1538.

5. CONCLUSÃO
Não cremos ser incorreto afirmar que o foco principal da influência de Calvino em Genebra recaiu sobre a vida religiosa. Foi a partir de uma sincera prática das verdades e valores do evangelho que ele idealizou tornar Genebra a "cidade de Deus". Mas a bem da verdade, muitos problemas e dificuldades com a vida moral da população e confrontação à sua liderança foram enfrentados antes que uma estabilidade que se aproximasse dos seus padrões fosse conseguida na igreja de Genebra. A implantação de uma nova ordem religiosa não inibiu o surgimento de imoralidades, inclusive dentro da sua própria família, quando sua cunhada cometeu adultério com o seu secretário particular e depois quando sua enteada ficou grávida sem estar casada. Em nenhuma das duas situações foi permitido o uso de dois pesos e duas medidas, ambos os casos foram tratados e julgados pelo consistório como todos os demais que já haviam ocorridos, inclusive a decretação da prisão de sua cunhada adúltera, esposa de seu irmão Antônio.
Nos últimos anos que João Calvino passou em Genebra, a amplitude do seu trabalho, ensino e liderança já haviam gerado uma nova mentalidade urbana. A academia de Genebra tornou-se uma verdadeira "escola de missões" da Europa, a ordem do governo e a probidade dos governantes da cidade associada a participação civil dos cidadãos ganharam fama. A igreja ensinava e vivia as verdades das Escrituras, a ação social era parte da vida cristã, além disso, promoveu-se uma ampla e reconhecida acolhida aos imigrantes, fugitivos de diversos lugares por perseguições aos protestantes. Genebra não era mais a mesma cidade do início de século XVI, o ideal calvinista não era um céu na terra, mas a busca dos valores do evangelho na vida individual e coletiva, indelevelmente haviam marcado as estruturas religiosas e sociais da cidade.

BIBLIOGRAFIA
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Bosch, David, Witness to the World. Atlanta: John Knox Press, 1980.
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Nichols, Robert H., História da igreja Cristã. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1978.
Van Engen, Charles, Povo de Deus, Povo Missionário: Por uma Redefinição do Papel da Igreja Local. São Paulo: Vida Nova, 1996.


Sobre o autor: O autor é pastor presbiteriano, mestre em missiologia pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper da Universidade Presbiteriana Mackenzie-SP e coordenador da Pós-Gaduação do Seminário Presbiteriano do Norte .

Fonte: 
Missiodei.com.br

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A Heresia do Pós-Milenismo - Felipe Sabino de Araújo Neto


É comum, em embates teológicos, a posição do adversário ser menosprezada, ridicularizada e mal-interpretada. Se o menosprezo e ridicularização forem provenientes da conclusão lógica da posição defendida, isso não é de todo errado. Contudo, se a posição ora atacada parecer absurda somente mediante uma má-interpretação da mesma, o opositor não é apenas covarde e ignorante, mas também caluniador. E se a posição difamada for uma doutrina bíblica, o caluniador é culpado também de blasfêmia.
Um problema comum, infelizmente, na análise que muitos autores fazem de certas doutrinas ditas cristãs é a rápida rotulação de heresia sobre tudo aquilo que diverge do que tais pessoas crêem. Algo errado, não é necessariamente herético. Por exemplo, o arminianismo é heresia porque ele tira a glória de Deus na salvação, e atribui ao homem, que é o grande responsável pela sua própria salvação, pois tudo depende da sua “gloriosa” decisão. O arminianismo também torna a Palavra de Deus mentirosa, pois todos os textos que falam sobre eleição incondicional, graça irresistível, expiação limitada e perseverança dos santos são menosprezados ou distorcidos. Contudo, esse não é o caso com todo erro doutrinário.
Para ilustrar o que foi dito acima, suponhamos que a Bíblia ensine que podemos tocar toda sorte de hinos, contanto que os mesmos expressem as doutrinas ensinadas na própria Bíblia. Contudo, sabemos que existem aqueles que defendem a salmodia exclusiva, ou seja, que somente os Salmos da Bíblia devem ser cantados no cântico congregacional. Assim, mesmo que alguém discorde desses irmãos, tal pessoa nunca poderia chamar essa posição de herética ou os seus defensores de hereges. Onde está a heresia deles? Em exagerar o valor dos Salmos? É pecado supervalorizar a Palavra de Deus? Aliás, é possível que supervalorizemos a Palavra de Deus? De forma alguma, pois o seu valor é infinito e eterno. Dessa forma, qualquer pessoa que chame a salmodia exclusiva de heresia, não é apenas um ignorante, mas talvez um covarde (se distorce a mesma, para ter o que “refutar”), e com certeza um blasfemo.
Quem acompanha as discussões teológicas no campo da escatologia, seja em livros, na igreja ou entre amigos, certamente já sabe o que esse breve artigo pretende questionar.
O pós-milenismo, a doutrina que ensina que Cristo virá após um milênio glorioso na Terra, não é apenas ignorado, mas violentamente criticado, e classificado como heresia perniciosa. É com pesar que reconheço que muitos dos teólogos que admiro tomam essa atitude. E estou falando de teólogos que defendem a Teologia Reformada, a mesma que outrora era praticamente sinônima de pós-milenismo, visto que os seus principais teólogos defendiam essa posição escatológica.1 Considerando o que o pósmilenismo ensina, considero tais afirmações calúnias graves contra cristãos e uma blasfêmia contra a Palavra de Deus e o próprio Deus.
Vejamos no que consiste o ensino do pós-milenismo, a fim de verificar se ele é mesmo uma heresia, perniciosa para a Igreja de Cristo:
1) O pós-milenismo ensina que o Evangelho, que é o poder de Deus para a salvação, terá sucesso em escalas mundiais, e influenciará toda a sociedade humana. Por causa da influência do Cristianismo, o mundo gozará de um grande período de paz e prosperidade. Por crer na depravação total do homem, o pós-milenismo não crê que tais melhorias advirão da “evolução” do homem, mas sim do poder de Deus, atuando mediante a Sua Palavra e o Seu Espírito, regenerando corações, e sujeitando as nações à Cristo. Não obstante muitos covardes dizerem que o pós-milenismo tem muito em comum com a evolução, isso não passa de calúnia de quem comenta o que não conhece, conforme podemos verificar analisando as obras de referência sobre o assunto, quer antigas ou modernas. Embora nem todos serão salvos, o Cristianismo será a norma da nossa sociedade, num tempo futuro determinado por Deus.
Pergunta: É heresia crer que o Evangelho de Deus é tão poderoso assim? É heresia crer que Deus pode converter e transformar a nossa sociedade, ao ponto do Cristianismo verdadeiro ser dominante? É heresia crer que Cristo continua conosco, ajudando-nos a cumprir a Grande Comissão, e realmente salvando?
2) O pós-milenismo ensina que Jesus Cristo retornará pessoal e visivelmente no final da história para julgar o mundo. Tal retorno será após o que chamamos de milênio, o período desde a primeira vinda de Cristo até a sua segunda vinda.2
Pergunta: Qual é a heresia em se manter que Cristo virá após o milênio? Amilenistas e pré-milenistas têm o direito de achar que estamos errados nesse ponto, mas em que constitui a nossa heresia? Manter que algo vem após o milênio é heresia? E porque o estado eterno das coisas, que todos os cristãos defendem como algo vindo após o milênio, não é considerado heresia?
3) O pós-milenismo ensina que a paz e a prosperidade que reinarão no mundo serão resultados provenientes da conversão em massa de pessoas ao Cristianismo. O Cristianismo não será apenas a crença comum, mas também a prática. Em outras palavras, veremos o Cristianismo verdadeiro, que inclui a prática da doutrina pregada.
Pergunta: Qual é a heresia em se esperar que o Evangelho produza os frutos que são esperados mediante a sua pregação? É correto acreditar que o Evangelho impactou profundamente a sociedade apenas nos primeiros séculos da Igreja e na época da Reforma? Todas as outras eras da igreja estão destinadas a terem igrejas cheias de hipócritas, que não vivem o que pregam? Ortodoxia significa esperar e crer que cada vez mais teremos aqueles que vivem o que pregam, mas cuja pregação são baboseiras irracionais e antibíblicas? Cristo prometeu que Ele estaria conosco até a consumação de tudo, e não há nada mais justo do crer nisso. Deus afirmou que a Sua Palavra não voltará vazia, e prometeu entregar as nações a Cristo (Sl. 2:8), e a Sua Igreja não se envergonha de crer nisso.
Há muitas outras coisas que o pós-milenismo ensina, mas as mesmas serão omitidas por não constituírem doutrinas particulares dessa posição escatológica. Por exemplo, os pós-milenistas crêem que os mil anos de Apocalipse não devem ser interpretados literalmente, mas sim como significando um grande período de tempo; contudo, essa é a mesma visão do amilenismo. Ambos ensinam que Deus tem um único povo, constituído de judeus e gentios, e que a Igreja não é um parêntese na história da humanidade, mas sim algo projetado por Deus na eternidade, e presente no Antigo e no Novo Testamento. Por causa dessas similaridades, é decepcionante ver as duras críticas que o pós-milenismo tem recebido da parte de amilenistas, o que expõem a ignorância ou puro preconceito destes.
Diante de tudo isso, pergunto: onde está a heresia do pós-milenismo? Crer num Deus grande demais? Crer numa Palavra excessivamente poderosa? Crer num Evangelho eficaz? Crer que nada é impossível para Deus, muito menos aquilo que Ele prometeu?
Seja qual for o fator motivador, não há justificativa bíblica nem racional para rotular o pós-milenismo de heresia. Tal avaliação é procedente de uma mente deturpada, que não sabe analisar fatos e doutrinas à luz da Escritura. Alguns podem intentar com isso causar aversão nos cristãos a essa posição escatológica (o que é comum vermos!), para que os mesmos encarem os argumentos bíblicos e teológicos do pós-milenismo com pré-conceito e avaliações (equivocadas) já formadas, mas isso também é pecado. E essa aversão é uma das principais causas de caricaturas do pós-milenismo, pois muitos acabam criticando o que não conhecem. É hilário ver que pessoas que nunca leram uma obra completa sobre pós-milenismo criticam o mesmo, como se já tivessem analisado e refutado essa posição à luz das Escrituras.
Caro leitor, coloque a mão na boca antes de proferir algo sobre uma doutrina cujo suposto erro é atribuir poder e honra em excesso a Deus, Cristo, o Espírito Santo e a Sua Palavra.
Se você é um pós-milenista, e possui amigos que criticam essa posição, pergunte se eles já leram e estudaram com afinco um dos livros abaixo. Se não, peça para deixarem de calúnias:
He Shall Have Dominion: A Postmillennial Eschatology, de Kenneth L. Gentry, Jr
Postmillenialism: An Eschatology of Hope, de Keith A. Mathison,
Thine is the Kingdom: A Study of the Postmillennial Hope, de Kenneth L. Gentry (editor)
An Eschatology of Victory, de J. Marcellus Kik


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

João Calvino e o Pós-Milenismo - Greg L. Bahnsen

   
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1

João Calvino e o pós-mlenismo, escatologia de Calvino
A teologia Reformada (como distinta da teologia evangélica ou luterana) toma como seu pai o indisputável mestre teológico da Reforma Protestante, João Calvino. A herança do pós-milenismo na teologia Reformada pode ser traçada ao corpo de literatura de Calvino. J. A. De Jong, em sua dissertação de doutorado na Universidade Livre de Amsterdã (As the Water Cover the Sea), afirmou que “os comentários de João Calvino fazem alguns estudiosos concluir que ele antecipou a dispersão do evangelho e da verdadeira religião até os confins da terra”.2 J. T. McNeill, o editor das Institutas da Religião Cristã de Calvino para a Library of Christian Classics, fala do “conceito de Calvino da vitória e futura universalidade do Reino de Cristo por toda a raça humana, um tópico freqüentemente abordado nos Comentários”.3 Em seu recente estudo, The Puritan Hope, Iain H. Murray declarou que “Calvino cria que o reino de Cristo já estava estabelecido, e, diferente de Lutero, esperava que ele ainda tivesse um triunfo ainda maior na história antes da consumação”.4 O julgamento desses homens (e essas fontes secundárias das quais eles dependem) é certamente bem fundamentado nos escritos de Calvino.

     Sobre a visão que Cristo teria um reino de mil anos literais sobre a terra (a saber, pré-milenismo), Calvino disse que “a ficção desses é por demais pueril para que tenha necessidade de refutação ou seja ela digna”. Ao mesmo tempo, ele indicou seu implícito desacordo com a visão (promovida mais tarde pelos amilenistas) que o milênio pertence ao estado intermediário dos santos (isto é, seu descanso celestial desincorporado subseqüente à morte física, e anterior à ressurreição geral.); de acordo com Calvino, os “mil anos” de Apocalipse 20 pertencem à “igreja enquanto ainda labutando na terra”.5 Nem Calvino concordava com a posição que diz que o triunfo milenar dos santos é simplesmente as vitórias espirituais (invisíveis) no coração do crente ou as bênçãos interiores, experimentadas privativamente pela igreja (a saber, uma escola de interpretação amilenista). Com aplicação particular ao reino de Cristo, ele disse: “não teria sido suficiente para o reino ter florescido internamente”.6 Calvino viu o salmista como dizendo que a prosperidade e força do Rei escolhido por Deus deve ser visível e reconhecida; Cristo deve ser mostrado vitorioso sobre todos os seus inimigos neste mundo, e deve demonstrar-se que o seu reino é imune às varias agitações atualmente experimentadas no mundo.7 Em seu comentário sobre 2 Tessalonicenses 2:8, Calvino declarou:

Paulo, contudo, declara que enquanto isso Cristo irá, pelos raios que emitirá antes do seu advento, dissipar as trevas nas quais o anticristo reinará, assim como o sol, antes de ser visto por nós, expulsa as trevas da noite ao emitir os seus raios.

Essa vitória da palavra, portanto, se mostrará neste mundo… Ele também forneceu Cristo com essas próprias armas, para que ele possa derrotar seus inimigos. Esse é um louvor extraordinário à doutrina sã e verdadeira – ela é representada como suficiente para colocar um fim a toda impiedade, e como destinada a ser invariavelmente vitoriosa, em oposição a todas as maquinações de Satanás… [ênfase adicionada].

     Para Calvino, o reino de Cristo era visto como estabelecido no primeiro advento e continuando em força até o segundo advento. Durante esse período inter-adventual, a igreja está destinada a experimentar sucesso abrangente; no decorrer da história ela trará todas as nações ao governo soberano de Cristo. A esse período inter-adventual Calvino remeteu muitas das profecias gloriosas sobre o reino do Messias encontradas no Antigo Testamento. “Os santos começaram a reinar debaixo do céu quando Cristo os introduziu em seu reino pela promulgação do evangelho”.8 Comentando sobre a profecia de Isaías 65:17, sobre os novos céus e uma nova terra de Deus, Calvino disse: “Por essas metáforas ele promete uma mudança extraordinária das coisas; … mas a maior de tais bênçãos, que haveria de ser manifesta na vinda de Cristo, não poderia ser descrita de nenhuma outra forma. Nem ele queria dizer apenas a primeira vinda, mas o reino todo, que deve ser estendido até a última vinda… Assim, o mundo é (por assim dizer) renovado por Cristo…e mesmo agora estamos no progresso e realização disso… O Profeta tem em seu olho o reino todo de Cristo, até a sua conclusão final, que é também chamado de ‘o dia de renovação e restauração’ (Atos 3.21)”. “A glória de Deus brilha… nunca mais brilhantemente do que na cruz, na qual… o mundo todo foi renovado e todas as coisas restauradas à ordem”.9 Sobre Isaías 2:2-4, Calvino tinha o seguinte a dizer: “… embora a plenitude dos dias começou na vinda de Cristo, ela segue num progresso ininterrupto até que ele apareça uma segunda vez para a nossa salvação”. Durante esse tempo “a igreja, que tinha anteriormente estado, aparentemente, calada num canto, será agora reunida de todos os lados… O Profeta aqui mostra que os limites do seu reino serão alargados, de forma que ele possa governar sobre várias nações… Cristo não foi enviado aos judeus somente, para que pudesse reinar sobre eles, mas para que pudesse dominar todo o mundo”. O progresso triunfante da igreja, reinando sob Cristo, será extraordinário no decorrer da história; a restauração sotérica do mundo será crescentemente evidente à medida que todas as nações ficarem debaixo do governo do Salvador. Tal era a esperança de Calvino, sua filosofia bíblica de história.

     O cetro do reino de Cristo pelo qual ele governa é “sua Palavra somente”, e Satanás com seu poder fracassa à extensão em que o reino de Cristo é alargado mediante o poder da pregação.10 Calvino proclamava ousadamente que “o labor de Cristo, e de toda a Igreja, será glorioso, não somente diante de Deus, mas diante dos homens também… Assim, segue-se que devemos ter grande esperança de sucesso”.11 “Não devemos duvidar que o nosso Senhor virá finalmente para avançar todas as tarefas dos homens e fazer passagem para a sua palavra. Esperemos então confiantemente, mais do que podemos entender; ele ainda superará nossa opinião e esperança”.12

     A confiança do Reformador foi claramente expressa em suas exposições da Oração do Senhor na segunda petição (“venha o teu reino”): “agora, porque a palavra de Deus é como um cetro real, somos ordenados aqui a trazer a mente e coração de todos os homens em obediência voluntária a ela… Portanto, Deus estabelece seu Reino humilhando o mundo inteiro… Devemos diariamente desejar que Deus reúna igrejas para si mesmo de todas as partes da terra; que ele espalhe e aumente-as em número;… que ele destrua todos os inimigos do ensino e da religião pura; que ele dissipe seus conselhos e esmague seus esforços. Disso parece que o zelo por progresso diário não é imposto sobre nós em vão… Com um esplendor sempre crescente, ele mostra sua luz e verdade, pela qual as trevas e falsidades do reino de Satanás desaparecem, são extinguidos e morrem… [Deus] é dito reinar entre os homens, quando eles voluntariamente se devotam e se submetem para serem governados por ele… por essa oração pedimos, que ele possa remover todos os obstáculos, e possa trazer todos os homens debaixo do seu domínio… A substância dessa oração é que Deus iluminará o mudo pela luz de sua Palavra – formará os corações dos homens, pelas influências do Espírito, para obedecer sua justiça – e restaurará à ordem, pelo exercício gracioso do seu poder, toda a desordem que existe no mundo… Novamente, à medida que o reino de Deus está continuamente crescendo e avançando para o fim do mundo, a tal extensão o reino de Deus, que vem com prefeita justiça, ainda não chegou”. 13 Essa oração pelo sucesso evidente da Grande Comissão não será em vão, de acordo com Calvino; nossa esperança para o sucesso deve ser ousada, pois não duvidamos que Cristo realizará esse propósito no mundo. Aqui temos a visão pós-milenista para a história pré-consumação.

     A crença de Calvino que as nações serão discipuladas e tornadas obedientes à Palavra de Cristo foi expressa continuamente em seus escritos. “Nossa doutrina, porém, sublime acima de toda glória do mundo, invicta acima de todo poder, importa que seja enaltecida, pois não é nossa, mas do Deus vivo e de seu Cristo, a quem o Pai constituiu Rei, para que domine de mar a mar e desde os rios até os confins do orbe das terras [Sl 72.8]. E de tal forma, em verdade, deve ele imperar, que, percutida só pela vara de sua boca, a terra toda, com seu poder de ferro e bronze, com seu resplendor de ouro e prata, ele a despedaçará como se outra coisa não fosse senão diminutos vasos de oleiro, na exata medida em que os profetas vaticinam acerca da magnificência de seu reino (Dn. 2:34; Is. 11:4; Sl. 2:9)”.14 “Deus não somente protege e defende [o reino de Cristo], mas também estende seus limites em todas as direções, e então preserva e transmite-o adiante em progresso ininterrupto até a eternidade… Não devemos julgar sua estabilidade a partir da presente aparência das coisas, mas a partir da promessa, que nos assegura de sua continuidade e de seu crescimento constante”. 15 “O Senhor abre o seu reino com um começo fraco e desprezível para o propósito expresso, que seu poder possa ser mais plenamente ilustrado por seu progresso inesperado”. 16 Comentando sobre Isaías 54:1-2, Calvino fala da “fertilidade extraordinária da Igreja” à medida que o reino cresce, e usa a imagem de crescimento desde a infância até a virilidade para explicar que “a obra de Deus será extraordinária e maravilhosa”. Com referência ao Salmo 67, Calvino chama atenção para a bênção nova e sem precedentes que virá quando os gentios forem chamados e todas as nações participarem do conhecimento salvífico de Deus; à medida que a palavra da salvação é difusa por toda a terra, disse Calvino, todos os confins da terra se submeterão ao governo divino. No Salmo 22:27 (“Lembrar-se-ão do SENHOR e a ele se converterão os confins da terra”) Calvino fala novamente do mundo inteiro prestando a obediência voluntária da verdadeira piedade ao Messias prometido.

     O reino triunfante do Messias sobre o mundo inteiro será realizado à medida que as nações chegarem a um conhecimento salvífico de Deus, sustentava Calvino. “O conhecimento de Deus será disseminado por todo o mundo; … a glória de Deus será conhecida em cada parte do mundo”.17 Em seus Sermões sobre as epístolas pastorais, Calvino declarou que “o conhecimento de Deus deve brilhar por todo o mundo e cada pessoa deve ser um participante dele”; portanto, “devemos nos esforçar grandemente para trazer todos aqueles que estão fora do caminho da salvação: e não devemos pensar nisso apenas para o tempo de nossa vida, mas para após nossa morte também”.18 Era precisamente por causa da confiança de Calvino na promessa da Escritura que o evangelho seria tão próspero, ao ponto de trazer as nações em submissão a Cristo, que ele somente foi ativo em enviar missionários – diferente dos medievais e seus companheiros Reformadores, que esperavam o fim iminente do mundo (e.g., Lutero esperava que o fim acontecesse durante o seu tempo de vida).

     Porque Cristo tinha comissionados aos ministros “seu Evangelho, que é o cetro de seu reino… eles exercem certo tipo do seu poder” – um poder pelo qual subjugam o mundo todo ao domínio de Cristo.19 De acordo com Calvino, o Salmo 47 “contém… uma profecia acerca do futuro reino de Cristo. Ensina que a glória que então resplandeceu sob a figura do santuário material difundirá seu esplendor mais e mais amplamente, quando Deus mesmo fizer os raios de sua graça brilharem em terras distantes, a fim de que os reis e nações se unam em comunhão com os filhos de Abraão”. “Quando Deus é denominado, um terrível e grande Rei sobre toda a terra, esta profecia se aplica ao reino de Cristo… O profeta, pois, ao declarar que os gentios seriam conquistados, de modo que não mais recusariam obediência ao povo eleito, se põe a descrever aquele reino do qual falara previamente. Não devemos pressupor que ele aqui trata daquela providência secreta pela qual Deus governa por meio de sua Palavra… Com estas palavras ele notifica que o reino de Deus… se estenderia às extremas fronteiras da terra… ao ponto de ocupar o mundo inteiro, de uma a outra extremidade”.20 “A Igreja não será limitada a algum canto do mundo, mas se estenderá mais e mais amplamente, enquanto houver espaço pelo mundo inteiro”.21

     Nesse ponto, já deve estar claro que Calvino endossava o princípio central do pós-milenismo, a confiança otimista que o evangelho de Cristo converterá a vasta maioria do mundo em algum tempo antes do retorno do Senhor em juízo e glória. Falando do Salmo 72, Calvino ensinou que “o reino de Cristo… se estenderia desde o nascente do sol até ao poente dele… O significado, pois, consiste em que o rei escolhido por Deus na Judéia alcançaria vitória tão completa sobre seus inimigos, longínqua e ampla, que viriam humildemente prestar-lhe homenagem… Este versículo [11] contém uma afirmação muito distinta da verdade: para que o mundo todo seja conduzido em sujeição à autoridade de Cristo… as nações se convencerão de que nada é mais desejável do que receber dele leis e ordenanças… Davi… se prorrompe em louvar a Deus, visto que lhe fora assegurado pelo oráculo divino que suas orações não seriam em vão… Davi, pois, com boas razões ora para que a glória do divino nome pudesse encher toda a terra, visto que o reino estava para estender-se até mesmo às fronteias mais remotas do globo”.

     Expressões dessa convicção são múltiplas por todos os comentários de Calvino. Por exemplo, “… o Pai não negará absolutamente nada a seu Filho, o que se relaciona com a extensão de seu reino até aos confins da terra”.22 No mesmo lugar Calvino indica que entendia o Salmo 2 como predizendo que o mundo inteiro seria subjugado a Cristo e todas as terras e nações seriam mantidas sob seu domínio. Na introdução ao Salmo 110, ele explica: “Neste salmo Davi apresenta a perpetuidade do reino de Cristo, e a eternidade do seu sacerdócio; e, em primeiro lugar, ele afirma, que Deus conferiu a Cristo domínio supremo, combinado com poder invencível, com o qual ele conquistará todos os seus inimigos, ou os compelirá a se submeterem a ele. Em segundo lugar, ele adiciona que Deus estenderá os limites do seu reino mais e mais amplamente… Cristo não deveria reinar como Rei sobre o Monte Sião apenas, pois Deus fez seu poder se estender às regiões mais remotas da terra”. Calvino adiciona que esse reino continua a se espalhar e prosperar.

     Do escopo dessa prosperidade, Calvino disse: “O significado de tudo é que Cristo reinará tão amplamente, que os mais distantes viverão com satisfação sob a sua proteção, e não tirarão o jugo posto sobre eles”. 23 “A adoração de Deus florescerá em todo o lugar…A lei que tinha sido dada aos judeus seria proclamada entre todas as nações, de forma que a verdadeira religião pudesse ser espalhada por todos os lugares…desde então é necessário que a adoração de Deus seja baseada sobre a verdade, quando Deus declara que seu nome se tornará renomado em todos os lugares, ele sem dúvida mostra que sua lei será conhecida de todas as nações, de forma que sua vontade possa ser conhecida por toda a parte…”.24 Para que não haja um malentendimento do significado de Calvino, deveria ser observado que em seu comentário sobre Isaías ele deixa abundantemente claro que essas profecias de prosperidade e crescimento mundial não pertencem simplesmente a um efeito ordinário do evangelho sobre as nações; os profetas anteverão não meramente a instalação da igreja numas poucas localidades sobre a terra, mas antes o extraordinário – de fato, inacreditável – triunfo do reino por todo o mundo.

     A igreja marcha, não simplesmente para lutar (com conversões periódicas ou esporádicas de um lugar para outro), mas para a vitória inacreditável (a saber, o discipulado das nações como tal). “Embora essas coisas que o Senhor promete estejam escondidas, por um tempo, dos olhos dos homens, todavia, os crentes percebem-nas pela fé; assim, eles têm uma firme crença e expectativa do cumprimento delas, não importa quão inacreditáveis possam parecer aos outros… Ele fala da extensão da Igreja que tinha anteriormente mencionado; mas era de grande importância que as mesmas coisas fossem frequentemente repetidas, pois parece ser inacreditável que a Igreja… seria restaurada e espalhada por todo o mundo…para espanto de todos… espalhada mais e mais amplamente por toda parte do mundo”. No mesmo lugar Calvino fala da “obediência, que o mundo todo prestará a Deus na igreja”. Com a verdade infalível da palavra de Deus como o seu fundamento e confiança, Calvino afirmou: “não há nada que devamos desejar mais seriamente que o mundo todo se curvar à autoridade de Deus”.25

     Uma percepção adicional da filosofia otimista de Calvino da história pré-consumação é nos proporcionada em suas orações. Dois exemplos são oferecidos aqui. A força da fé do Reformador é evidente enquanto ele orava: “Permite que possamos erguer nossos olhos para o alto e considerar o grande poder que colocaste em teu Unigênito Filho – ou seja, que ele possa reinar sobre nós e nos governar pelo poder de seu Espírito, e que nos mantenha em sua promessa e proteção e compila o mundo inteiro para promover a nossa salvação”. Na mesma séria de exposições, ele orou: “Que jamais nos sintamos cansados, mas aprendamos a vencer o mundo inteiro…”.26 Após a 34ª exposição sobre Oséias, Calvino orou: “Ó, concede que nós, lembrando desses benefícios, possamos sempre nos submeter a ti, e desejar somente levantar nossa voz para esse fim, que o mundo todo possa se submeter a ti, e que aqueles que parecem agora lutar contra ti possam ser trazidos, assim como nós fomos, a prestar obediência a ti, de forma que teu Filho Cristo possa ser Senhor de todos”. A esperança biblicamente fundamentada de Calvino brilha com fulgor em sua oração: “Possamos nós diariamente solicitar a ti em nossas orações, e nunca duvidar, mas que sob o governo de teu Cristo, tu possas novamente reunir o mundo todo, apesar de miseravelmente disperso, de forma que possamos perseverar nessa guerra até o fim, até que saibamos no final que não esperamos em vão em ti, e que nossas orações não foram em vão, quando Cristo exercer o poder lhe dado para a nossa salvação e para a do mundo todo”.27

     Assim, concluímos que a teologia Reformada começou com uma perspectiva pós-milenista, uma confiança estrita nas promessas da Escritura, que Cristo subjugaria o mundo todo ao evangelho. As dogmáticas, comentários e orações de Calvino formam uma bela e orquestrada apresentação de uma esperança escatológica que se tornaria uma doutrina distintiva e um poder motivador por toda a história do Cristianismo Reformado.

Fonte: Victory in Jesus: The Bright Hope of Postmillennialism, Greg L. Bahnsen, Covenant Media Press, p. 75-82.

1 Traduzido em setembro/2007.
2 De Jong, p. 8.
3 Calvin: Institutes of the Christian Religion, ed. John T. McNeill, trans. Ford Lewis Battles (Philadelphia: Westminster Press, 1960), vol. II, p. 904, n. 76.
4 Iain Murray, p. 40.
5 Institutes, III.XXV.5.
6 Comentário sobre Sl. 21:8.
7 Ibid.
8 Comentário sobre Dn. 7:27.
9 Comentário sobre João 13:31
10 Institutes, IV.ii.4 e I.xiv.18; cf. Comentário sobre Is. 11:4.
11 Comentário sobre Is. 49:6.
12 Citado por Murray, p. xii.
13 Institutes, III.xx.42, e comentário sobre Mateus 6:10 (Harmony of he Evangelists)
14 Institutes, Carta ao Rei Francisco I.
15 Comentário sobre Is. 9:7.
16 Comentário sobre Mateus 13:31 (Harmony of the Evangelists).
17 Comentário sobre Is. 66:19.
18 Citado por Murray, p. 84
19 Comentário sobre Sl. 45:16.
20 Comentário sobre Sl. 47:2, 3, 7, 8; cf. Comentário sobre Ia. 60:3 para uma imagem similar da luz difundindo por todo o mundo, começando num lugar e se espalhando para cada canto; “a igreja brilha com tal esplendor, que atrai para si nações e príncipes”.
21 Comentário sobre Is. 60:4.
22 Comentário sobre Sl. 2:8.
23 Comentário sobre Zc. 9:10 (“seu domínio se estenderá de mar a mar… até às extremidades da terra”).
24 Comentário sobre Ml. 1:11 (“Mas, desde o nascente do sol até ao poente, é grande entre as nações o meu nome; e em todo lugar lhe é queimado incenso e trazidas ofertas puras, porque o meu nome é grande entre as nações, diz o SENHOR dos Exércitos”).
25 Comentário sobre Is. 60:4, 16.
26 Orações no final da 9ª e 65ª exposições no Comentário de Daniel.
27 Oração no final da 97ª exposição sobre os Profetas Menores (seguindo Miquéias 7:15)